quarta-feira, 18 de outubro de 2017

A CDD como Campus de Produção de Conhecimento Cientifico

Vista lateral Praça Pe. Julio Groten e parte da Rua Edgard Werneck.
Fonte: Google Maps


Proposta de Criação do Observatório da CDD

Argumentação que faço baseada nas experiências históricas da Cidade de Deus e recortes sobre concepções contemporâneas protagonizadas pelo Observatório das Favelas sediado no conjunto de comunidades da Maré. 

Desde os anos setenta e mais intensamente nos anos oitenta que os grupos de produção e movimentos culturais e literários criados na Cidade de Deus (com atores intergeracionais dos 14 aos 70 anos) produziam uma agenda que sempre ou quase sempre incluía conscientemente a produção de conhecimento científico numa perspectiva de intervenção cultural em rede e a partir de mapeamentos e diagnósticos próprios ou apropriados de outras fontes e territórios.  Era como se vivêssemos imersos numa grande universidade popular. É possível que esse acumulo tenha influenciado na formação das novas gerações de atores sociais que passam a se instrumentalizar nas assim chamadas organizações não governamentais de base comunitária e que vem constituir em 2003 o Comitê Comunitário da Cidade de Deus e em 2004 a Agencia CDD de Desenvolvimento Local.


A partir de certo momento, alguma lideranças da Cidade de Deus verificam que sua população vinha sendo tratada como objeto de pesquisa científica e com o agravante de que quase sempre descrita muito mais como assistida do que como protagonista de sua própria história. Constatação esta que por si só, parece-me, justificar o reacender olhares juvenis ao ingresso para além das universidades e promoção do feedback tão propagado nas primeiras gerações, ou seja, depois de alcançar a universidade, compartilhar com a comunidade a experiência acadêmica, sem culpa nem obrigação.

Das conexões entre Territórios das Periferias Fluminense & Academias brasileiras e do Exterior

Verifiquei, sobretudo na fase pós UPP + Social interesse das universidades em promover e intensificar intercâmbios com  produções culturais das favelas cariocas. Mesmo antes, cabe lembrar a experiencia da Universidade das Quebradas.
https://www.universidadedasquebradas.com/

Na Cidade de Deus chamo atenção para a recente pesquisa  CONSTRUINDO JUNTOS           
 http://construindojuntos.com/index.php/metodologia/ sobretudo sua metodologia que considero de um grau de excelência que ainda não havia testemunhado in loco em toda minha vivencia na Cidade de Deus.
Importante ressaltar que a coordenadora da pesquisa, socióloga Anjuli Fahlberg, da Northeastern University em Boston e Ricardo Fernandes, professor e coordenador do grupo teatral Os Arteiros, tenham se esforçado para que os jovens participantes da pesquisa de campo em toda a construção do diagnóstico viessem a se apropriar deste conhecimento.
Até meado dos anos oitenta, outrora Colégio José de Alencar, atualmente CVT CDD da FAETEC, foi sede do Conselho de Moradores Cidade de Deus e importantes eventos como por exemplo o I Encontro Popular pela Saúde do Estado do Rio de Janeiro que serviu de base para a criação do SUS.

Observatório da CDD. Uma Utopia Possível?


CASA DE CULTURA CIDADE DE DEUS, UM EXEMPLO A SER ESTUDADO


A Casa de Cultura, desde sua fundação, 2011, coleciona em seu portfólio iniciativas semelhantes ou próximas do que poderia ser uma incubadora, produtora e gestora de projetos que transitam no campo da pesquisa e do diagnóstico social e de formação especializados em artes, educação popular, esporte e memória.
Contudo existem muitas outras experiências e iniciativas para serem catalogadas e consideradas como potenciais para o start no devido tempo na construção do Observatório. 

Em 2016 o Comitê Comunitário da Cidade de Deus chegou a contar com a participação de vinte iniciativas organizacionais (grupos, coletivos e pessoas jurídicas de direito privado) de natureza popular e uma pessoa física.

Exemplos de Iniciativas da Casa de Cultura Cidade de Deus:






Para pensar

  1. Poderia a Casa de Cultura Cidade de Deus, aqui citada como exemplo, com o devido aporte de recursos, ter condições de se apropriar desta ideia e colocar sua expertise a serviço da criação do Observatório da CDD?
  2. Estaríamos preparados hoje para que no âmbito das instituições sediadas na CDD de base comunitária formar um grupo de trabalho e estudo de viabilidade para formular e executar um projeto semelhante ao projeto NOVOS SABERES do Observatório das Favelas? 


Acredito que sim. Temos condições de pelo menos amadurecer esta proposta, mas penso ser necessário mais organizações participarem deste debate.


quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Musica Popular Erudita ou Musica Erudita Popular?

Na praça Zípora, localizada na Cidade de Deus, bairro, favela e território com vários aromas que vão do Charme ao Funk, do Hip Hop ao Samba de quadra ou mesa, encontro no caminho de casa um rapaz ensaiando uma música clássica. No vídeo é flagrante minha alegria em registrar aquele raro momento o que me leva concluir ou indagar. Será então uma musica erudita popular?

Só me resta agora reencontrar o rapaz que muito gentilmente autorizou a gravação para o devido crédito.


FLUP 2016 CDD 50 ANOS


Macumba de Rodrigo Santos


quinta-feira, 20 de julho de 2017

Quem somos Nós da CDD e como podemos ser melhor articulados?


Sinto que chega ser consenso que a união de pequenos grupos aumenta oportunidades. Existem até iniciativas louváveis de ações em rede.

No entanto, observo que o processo de união entre as lideranças passa necessariamente pela qualidade e intensidade de mutuo engajamento em seus projetos que por si só já demanda um trabalho lento, complexo e delicado.


Nos encontros em rodas de conversa, reuniões de trabalho e seminários o que ainda se nota?


E quando nos reunimos, o que já é uma vitória, nos momentos em que todos estão expondo suas experiências, demandas e propostas, são entrecortados mais com atitudes de autoafirmação e menos ou quase nenhuma pergunta com a natureza de entender o outro. Noto certa ausência de empatia (estar no lugar do outro) para diálogo consequente. Talvez uma ausência pontual ou localizada aqui e acolá mas que de algum modo dificulta o desejo latente de se reconhecer no outro e vice versa para recriar relacionamentos.

Das grandes enchentes, passando pelos incêndios domiciliares e acidentes de trânsito, sempre temos desconhecidos solidários arriscando-se para salvar vidas ou ajudar vítimas desconhecidas.

Historicamente a iniciativa de ajudar a salvar vidas e mobilizações populares unindo lideranças e até fazendo com que o povo reconheça naturalmente lideranças, se revelam com mais evidência em situações de tragédia. (vide as enchentes que massacraram a Cidade de Deus nos anos noventa).
Talvez falte escuta qualificada entre nós.

A Cidade de Deus tem demonstrado uma especial vocação no seu desenvolvimento midiático com múltiplas linguagens e vantagens ainda pouco reconhecidas e subutilizadas interna e externamente.


Acredito então que devemos valorizar ao máximo nossos veículos e canais de comunicação e aprender a planejar nossas campanhas com esses canais que já temos.

Veículos:  CddAontece; RadioWebCdd e CDD A notícia por quem VIVE, CDD NA WEB e Esquina Produções,  no meu entender, já estão consolidados e com esperto domínio do que fazem e querem no campo da comunicação. Plataformas com conteudos atualizados como por exemplo o Portal Comunitário ou específicos como taidokan.com sobre as artes marciais e sua cadeia produtiva. Eventos literários com mic aberto como o Sarau Poesia de Esquina, são alguns exemplos a considerar em termos de comunicação local.

A comunidade se comunicando melhor pode ser um estratégia para debulhar melhor as cascas que separam as atuais lideranças.


E o reconhecimento de Nós nas capas e conteúdos destes veículos e plataformas talvez sirva para melhorar o entendimento e identificação sobre quem somos e consolidar encontros.
Trocando em miúdo:
a      
       Desejável que cada coletivo, rede, associação, ONG, igreja, cooperativa ao elaborar seu plano de marketing e comunicação, priorize e valorize os veículos que aqui reconhecidos.  

E que os veículos  já consolidados incluam em suas programações e pautas matérias das organizações com uma agenda positiva de eventos e projetos locais.

Que essa relação seja valorizada segundo princípios da economia solidária ou criativa.
   

Recomendados:

http://www.cidadededeus.org.br/jornal-anpqv/quem-somos
http://www.webradiocdd.org.br/
http://taidokan.com.br/
http://www.cddacontece.com.br/
https://cddnaweb.com.br/
@PoesiaDeEsquinaDaCidadeDeDeus



quinta-feira, 9 de abril de 2015

TV FRANCESA NA CASA DE CULTURA CIDADE DE DEUS GRAVA MATÉRIA SOBRE OFICINA LITERÁRIA INFANTIL



Wellington França

Dando um papo do que rolou antes:

A produção da TV FRANCESA ligou para o Paulo Lins pedindo sua ajuda para produzir uma matéria sobre oficinas literárias com crianças. Paulo, autor do livro Cidade de Deus, no exterior, indicou seu amigo Edson Veocca, poeta que já morou na CDD e faz parte do Coletivo Poesia de Esquina.
Edson me telefona pedindo para realizar uma oficina com as crianças do sarau e a gravação da matéria com  Aude, jornalista da TV FRANCESA na Casa de Cultura. Após algumas negociações e muitos E-mails, tivemos assim o grande momento na ensolarada manhã outonal do sábado, 14 de março de 2015.
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ENTREVISTAS, OFICINA E ...

Chega a artista octogenária D. Tuca. Deu um dedo de prosa, marcou um dez e meteu o pé dizendo que voltaria mais tarde.
Edson Veocca, em seguida, bem humorado se apresenta e segue para a cozinha fazer o café.

A educadora Clezenilda entra conduzindo a tropa de 12 meninas de 6 à 14 anos e uma penca de livros, papel ofício, cadernos, lápis e páginas e mais páginas  de poesia.

Escaldando copos e talheres, quebro uma pequenina xícara. Corro em busca de pá, vassoura e pano de chão.
Aude, a jornalista e sua assistente chegam como que paralisando o tempo.
Loucura geral: crianças freneticamente comendo, copos de guaraná caindo. Eu, Veocca e Cleo limpando e tentando organizar o birimbolo ao mesmo tempo atentos à repórter mais empolgada com  as crianças e filmá-las do que conosco.
As duas lindas francesas logo se sentem em casa. Misturam-se com as meninas que preferem se espalhar e se esparramar nos degraus e bancos do jardim do meio. Outras garimpam curiosas, livros de poesia na biblioteca.

Eu e o Veocca trocamos, aliviados, olhar cúmplice de um temor comum de último momento: o pouco que sei de francês ainda não dá para uma boa conversa e parece que o Edson está no mesmo barco. 

Havia implícito um entendimento que me caberia falar sobre a Casa de Cultura. Edson ficaria bem contando sobre o Sarau Poesia de Esquina e do premio Ações Locais cujo projeto contempla a produção de oficinas literárias. Clezenilda responderia pelas crianças do Sarau e o Nélio pelas oficinas que aplica. Não rolou. Mesmo com nossas mentes sob controle algumas dinâmicas inesperadas da vida nos tornam, de velhos autores e atores em grandes e abobalhados expectadores ou torcedores.
Cléo me pede ajuda para ficar atento aos acessos da casa e às 12 crianças peritas na arte da invisibilidade, temendo sumiços e precavendo acidentes.

Aude, logo toma iniciativa de entrevistar o Veocca, depois se debruça sobre os grupos de meninas ocupadas e muito sérias em suas anotações. Câmara ao ombro; assistente e fiel escudeira ao lado, a simpática e também francesinha moradora do Rio.
Clezenilda, abraçada numa cadeira, anda de um lado para o outro procurando um lugar para acomodar a atriz, pintora, sambista, poeta e compositora, D. Tuca,  incomodada ora com o sol, ora com as folhas da árvore.


Nélio, filmado, dando explicações, respondendo perguntas das crianças e toma-lhe entrevista.

Neste instante o que vejo é que são as crianças que promovem a oficina e que a Aude da TV é dona absoluta da pauta (o óbvio que já tínhamos previsto). Segue, assim, seu próprio roteiro.

Subo ao terceiro andar. Almofadas voam amparadas pelas crianças que ajudam arrumar o salão versátil (misto de auditório, academia de danças e lutas). Cadeiras em semicírculo; colchonetes pelo chão. 


Velho biongo oriental vira cenário. No palco de faz-de-conta o microfone com fio ligado em lugar nenhum.
Peço ao pé de ouvido à Cléo (a super avó da super poderosa dupla Bia e Duda), que proponha  um sarau infantil.  Ela então anuncia: 

“Vamos fazer um sarau igual ao do Poesia de Esquina!” 
Supervisiono a subida nas escadas. Livram-se dos chinelos, mas não desgrudam dos seus papeis (nos dois sentidos).

“Sarau infantil organizado pela criançada!” pondero.  E com essa palavra de ordem sem ordem, dão o jeito delas. Rapidinho uma menina muito séria, papel e caderno em punho, faz as inscrições. Falo ao Hibrido que fique por perto para atender o chamado de ser apresentador caso as meninas assim o decidam. A mocinha da lista, Beatriz Fernanda, logo o convoca para a missão.
Ana Beatriz, poeta, bailarina, neta da Clezenilda e do falecido Pastor Brasil, filha da Letícia, câmara em punho grava tudo, e depois, fala poesia.

Recitam de todas as maneiras. Lendo ou de memória.  Improvisam quando a mente foge. Tocam as letrinhas em volumes dos quase inaudíveis aos mais eloquentes e impostados.  Dos tons quase indecifráveis aos mais melodiosos. E nós adultos, que fomos para ensinar e falar delas, entendendo tudo de corpo e alma. Alguns olhos marejam. Muitos aplausos. E como gostam de palco essas gurias!

Um desfile completo de moda e arte. Tem até A Vitória, irmã da Alicia, sósia em miniatura da Gisele Bündchen!
Misto contra-regra e diretor ,encerro o evento, pedindo ao Hibrido  ( o cara é  Pastor, pai da recém-nascida  Lua;  esposo de bailarina Rayra, apresentador revelação do ano do sarau Poesia de Esquina e cantor de Hip Hop!) que feche o programa cantando.  Escolhe, “Palavras tem Poder”, de sua autoria e canta à capela, finalizando com estilo e muitos aplausos.
E quando penso que tudo acabou, vem a Clezenilda declarando em desespero um fato trágico: Uma pré-adolescente ficou fora da lista e não se apresentou!


A Platéia, em coro, reivindica a reabertura do sarau.
Alguém dialoga com a mocinha pedindo que se apresente. Revoltada, Letícia Larissa reluta um pouco, mas não resiste. Sorri e finalmente, declama seu poema.

No meio de tudo, lembro-me de Dona Tuca. Sumiu! Mas depois apareceu linda, esquentando a galera do Sarau (não este, o outro no Bar Tom Zé) Mas esta já é outra prosa.

sábado, 9 de agosto de 2014

O prólogo, a história e a esquina da poesia

PROLOGO
Metralhadoras tocando o hino da morte marcado pelo tambor das granadas tornam-se eco do passado. Manos, manas e menores, bandoleiros e soldados pobres tombados nas vielas atapetada de plástico vermelho com restos de pó garimpados por crianças. Pétalas de cinza pousando sobre mesas de bar, lembrando corpos de vítimas queimados pela crueldade humana mais sombria… Cedem lugar aos soldados cidadãos querendo ensinar artes e lutas para crianças. Jovens ensinando pais a materializar projetos. Trabalhadores sem trincheiras tricotando ideias reaprendem de igual para igual com intelectuais novos fazeres literários.
PONTO FINAL OU VÁRIAS EXCLAMAÇÕES?
W. atravessa a praça recém-molhada pela chuva que abre o 1º de maio de 2012. Mente inundada de conceitos apreendidos nos encontros da FLUPP PENSA.
Contar uma historia criada na Cidade de Deus com final feliz. Arte se sobrepondo ao fato. Construir e apresentar os personagens motivando e surpreendendo o leitor com grande final. Atenção na coerência dos tempos verbais.
Verossimilhança… Praticando o desapego sociológico em busca da genialidade. Editar como numa carpintaria tendo urdidura! O que falta?
A HISTORIA
Chuva prevista fez intervalo para alegria geral.
Mesas e cadeiras emprestadas do distante Bar do Bill arrumadas na rua em frente do Tico’s. DJ Fulano e amigos estiram lona entre postes.
Um morador que assinou o abaixo-assinado, forma de consulta popular indicada pela UPP SOCIAL, assiste, elogia e agradece a chegada da poesia na esquina da Rua Carmelo com a Estrada Edgard Werneck.
A historia de ler e fazer poesia iniciada pela juventude dos anos setenta é reescrita por jovens e veteranos às margens do terceiro milênio.
Caminhada nas vilas da CDD nos dois dias anteriores ao evento encontra e revela ao mundo crianças lendo o fanzine.
Assistir a artista Monica Rocha, exultante, capturar detalhes em filmes. Testemunhar a Viviane falando: – Cara! O que fizemos foi revolucionário! Singular e comovente.
O protótipo de lançamento (produção independente de trinta exemplares) do livro TEMPORAIS de Wellington Guaranny, em outubro de 2010 foi pontual. Chamou, no entanto atenção da parceira do RJTV, Viviane de Sales para iniciarem juntos a retomada do movimento literário na Cidade de Deus, com o sarau POESIA DE ESQUINA em novembro de 2011 e com o fanzine que divulga o evento e publica textos dos poetas que participam do SARAU.
O encontro de duas gerações separadas por três décadas legitimado por poetas e amantes da arte de todos os cantos e centros do Rio e Grande Rio.
O BONDE
Numa ponta, Ana Beatriz com oito anos, na outra D. Tuca, quase oitenta. No meio, Ricardo, DJ Fulano, Viviane, Rosalina, Wellington.
Numa avaliação foi dito sobre o final – Antes, acabava com pessoas saindo. Neste, acabou porque NÓS encerramos.
No encerramento foi dito com aplausos: Nós não fechamos a rua para realizar um sarau. Abrimos a rua para a Poesia.