quinta-feira, 20 de julho de 2017

Quem somos Nós da CDD e como podemos ser melhor articulados?


Sinto que chega ser consenso que a união de pequenos grupos aumenta oportunidades. Existem até iniciativas louváveis de ações em rede.

No entanto, observo que o processo de união entre as lideranças passa necessariamente pela qualidade e intensidade de mutuo engajamento em seus projetos que por si só já demanda um trabalho lento, complexo e delicado.


Nos encontros em rodas de conversa, reuniões de trabalho e seminários o que ainda se nota?


E quando nos reunimos, o que já é uma vitória, nos momentos em que todos estão expondo suas experiências, demandas e propostas, são entrecortados mais com atitudes de autoafirmação e menos ou quase nenhuma pergunta com a natureza de entender o outro. Noto certa ausência de empatia (estar no lugar do outro) para diálogo consequente. Talvez uma ausência pontual ou localizada aqui e acolá mas que de algum modo dificulta o desejo latente de se reconhecer no outro e vice versa para recriar relacionamentos.

Das grandes enchentes, passando pelos incêndios domiciliares e acidentes de trânsito, sempre temos desconhecidos solidários arriscando-se para salvar vidas ou ajudar vítimas desconhecidas.

Historicamente a iniciativa de ajudar a salvar vidas e mobilizações populares unindo lideranças e até fazendo com que o povo reconheça naturalmente lideranças, se revelam com mais evidência em situações de tragédia. (vide as enchentes que massacraram a Cidade de Deus nos anos noventa).
Talvez falte escuta qualificada entre nós.

A Cidade de Deus tem demonstrado uma especial vocação no seu desenvolvimento midiático com múltiplas linguagens e vantagens ainda pouco reconhecidas e subutilizadas interna e externamente.


Acredito então que devemos valorizar ao máximo nossos veículos e canais de comunicação e aprender a planejar nossas campanhas com esses canais que já temos.

Veículos:  CddAontece; RadioWebCdd e CDD A notícia por quem VIVE, CDD NA WEB e Esquina Produções,  no meu entender, já estão consolidados e com esperto domínio do que fazem e querem no campo da comunicação. Plataformas com conteudos atualizados como por exemplo o Portal Comunitário ou específicos como taidokan.com sobre as artes marciais e sua cadeia produtiva. Eventos literários com mic aberto como o Sarau Poesia de Esquina, são alguns exemplos a considerar em termos de comunicação local.

A comunidade se comunicando melhor pode ser um estratégia para debulhar melhor as cascas que separam as atuais lideranças.


E o reconhecimento de Nós nas capas e conteúdos destes veículos e plataformas talvez sirva para melhorar o entendimento e identificação sobre quem somos e consolidar encontros.
Trocando em miúdo:
a      
       Desejável que cada coletivo, rede, associação, ONG, igreja, cooperativa ao elaborar seu plano de marketing e comunicação, priorize e valorize os veículos que aqui reconhecidos.  

E que os veículos  já consolidados incluam em suas programações e pautas matérias das organizações com uma agenda positiva de eventos e projetos locais.

Que essa relação seja valorizada segundo princípios da economia solidária ou criativa.
   

Recomendados:

http://www.cidadededeus.org.br/jornal-anpqv/quem-somos
http://www.webradiocdd.org.br/
http://taidokan.com.br/
http://www.cddacontece.com.br/
https://cddnaweb.com.br/
@PoesiaDeEsquinaDaCidadeDeDeus



quinta-feira, 9 de abril de 2015

TV FRANCESA NA CASA DE CULTURA CIDADE DE DEUS GRAVA MATÉRIA SOBRE OFICINA LITERÁRIA INFANTIL



Wellington França

Dando um papo do que rolou antes:

A produção da TV FRANCESA ligou para o Paulo Lins pedindo sua ajuda para produzir uma matéria sobre oficinas literárias com crianças. Paulo, autor do livro Cidade de Deus, no exterior, indicou seu amigo Edson Veocca, poeta que já morou na CDD e faz parte do Coletivo Poesia de Esquina.
Edson me telefona pedindo para realizar uma oficina com as crianças do sarau e a gravação da matéria com  Aude, jornalista da TV FRANCESA na Casa de Cultura. Após algumas negociações e muitos E-mails, tivemos assim o grande momento na ensolarada manhã outonal do sábado, 14 de março de 2015.
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ENTREVISTAS, OFICINA E ...

Chega a artista octogenária D. Tuca. Deu um dedo de prosa, marcou um dez e meteu o pé dizendo que voltaria mais tarde.
Edson Veocca, em seguida, bem humorado se apresenta e segue para a cozinha fazer o café.

A educadora Clezenilda entra conduzindo a tropa de 12 meninas de 6 à 14 anos e uma penca de livros, papel ofício, cadernos, lápis e páginas e mais páginas  de poesia.

Escaldando copos e talheres, quebro uma pequenina xícara. Corro em busca de pá, vassoura e pano de chão.
Aude, a jornalista e sua assistente chegam como que paralisando o tempo.
Loucura geral: crianças freneticamente comendo, copos de guaraná caindo. Eu, Veocca e Cleo limpando e tentando organizar o birimbolo ao mesmo tempo atentos à repórter mais empolgada com  as crianças e filmá-las do que conosco.
As duas lindas francesas logo se sentem em casa. Misturam-se com as meninas que preferem se espalhar e se esparramar nos degraus e bancos do jardim do meio. Outras garimpam curiosas, livros de poesia na biblioteca.

Eu e o Veocca trocamos, aliviados, olhar cúmplice de um temor comum de último momento: o pouco que sei de francês ainda não dá para uma boa conversa e parece que o Edson está no mesmo barco. 

Havia implícito um entendimento que me caberia falar sobre a Casa de Cultura. Edson ficaria bem contando sobre o Sarau Poesia de Esquina e do premio Ações Locais cujo projeto contempla a produção de oficinas literárias. Clezenilda responderia pelas crianças do Sarau e o Nélio pelas oficinas que aplica. Não rolou. Mesmo com nossas mentes sob controle algumas dinâmicas inesperadas da vida nos tornam, de velhos autores e atores em grandes e abobalhados expectadores ou torcedores.
Cléo me pede ajuda para ficar atento aos acessos da casa e às 12 crianças peritas na arte da invisibilidade, temendo sumiços e precavendo acidentes.

Aude, logo toma iniciativa de entrevistar o Veocca, depois se debruça sobre os grupos de meninas ocupadas e muito sérias em suas anotações. Câmara ao ombro; assistente e fiel escudeira ao lado, a simpática e também francesinha moradora do Rio.
Clezenilda, abraçada numa cadeira, anda de um lado para o outro procurando um lugar para acomodar a atriz, pintora, sambista, poeta e compositora, D. Tuca,  incomodada ora com o sol, ora com as folhas da árvore.


Nélio, filmado, dando explicações, respondendo perguntas das crianças e toma-lhe entrevista.

Neste instante o que vejo é que são as crianças que promovem a oficina e que a Aude da TV é dona absoluta da pauta (o óbvio que já tínhamos previsto). Segue, assim, seu próprio roteiro.

Subo ao terceiro andar. Almofadas voam amparadas pelas crianças que ajudam arrumar o salão versátil (misto de auditório, academia de danças e lutas). Cadeiras em semicírculo; colchonetes pelo chão. 


Velho biongo oriental vira cenário. No palco de faz-de-conta o microfone com fio ligado em lugar nenhum.
Peço ao pé de ouvido à Cléo (a super avó da super poderosa dupla Bia e Duda), que proponha  um sarau infantil.  Ela então anuncia: 

“Vamos fazer um sarau igual ao do Poesia de Esquina!” 
Supervisiono a subida nas escadas. Livram-se dos chinelos, mas não desgrudam dos seus papeis (nos dois sentidos).

“Sarau infantil organizado pela criançada!” pondero.  E com essa palavra de ordem sem ordem, dão o jeito delas. Rapidinho uma menina muito séria, papel e caderno em punho, faz as inscrições. Falo ao Hibrido que fique por perto para atender o chamado de ser apresentador caso as meninas assim o decidam. A mocinha da lista, Beatriz Fernanda, logo o convoca para a missão.
Ana Beatriz, poeta, bailarina, neta da Clezenilda e do falecido Pastor Brasil, filha da Letícia, câmara em punho grava tudo, e depois, fala poesia.

Recitam de todas as maneiras. Lendo ou de memória.  Improvisam quando a mente foge. Tocam as letrinhas em volumes dos quase inaudíveis aos mais eloquentes e impostados.  Dos tons quase indecifráveis aos mais melodiosos. E nós adultos, que fomos para ensinar e falar delas, entendendo tudo de corpo e alma. Alguns olhos marejam. Muitos aplausos. E como gostam de palco essas gurias!

Um desfile completo de moda e arte. Tem até A Vitória, irmã da Alicia, sósia em miniatura da Gisele Bündchen!
Misto contra-regra e diretor ,encerro o evento, pedindo ao Hibrido  ( o cara é  Pastor, pai da recém-nascida  Lua;  esposo de bailarina Rayra, apresentador revelação do ano do sarau Poesia de Esquina e cantor de Hip Hop!) que feche o programa cantando.  Escolhe, “Palavras tem Poder”, de sua autoria e canta à capela, finalizando com estilo e muitos aplausos.
E quando penso que tudo acabou, vem a Clezenilda declarando em desespero um fato trágico: Uma pré-adolescente ficou fora da lista e não se apresentou!


A Platéia, em coro, reivindica a reabertura do sarau.
Alguém dialoga com a mocinha pedindo que se apresente. Revoltada, Letícia Larissa reluta um pouco, mas não resiste. Sorri e finalmente, declama seu poema.

No meio de tudo, lembro-me de Dona Tuca. Sumiu! Mas depois apareceu linda, esquentando a galera do Sarau (não este, o outro no Bar Tom Zé) Mas esta já é outra prosa.

sábado, 9 de agosto de 2014

O prólogo, a história e a esquina da poesia

PROLOGO
Metralhadoras tocando o hino da morte marcado pelo tambor das granadas tornam-se eco do passado. Manos, manas e menores, bandoleiros e soldados pobres tombados nas vielas atapetada de plástico vermelho com restos de pó garimpados por crianças. Pétalas de cinza pousando sobre mesas de bar, lembrando corpos de vítimas queimados pela crueldade humana mais sombria… Cedem lugar aos soldados cidadãos querendo ensinar artes e lutas para crianças. Jovens ensinando pais a materializar projetos. Trabalhadores sem trincheiras tricotando ideias reaprendem de igual para igual com intelectuais novos fazeres literários.
PONTO FINAL OU VÁRIAS EXCLAMAÇÕES?
W. atravessa a praça recém-molhada pela chuva que abre o 1º de maio de 2012. Mente inundada de conceitos apreendidos nos encontros da FLUPP PENSA.
Contar uma historia criada na Cidade de Deus com final feliz. Arte se sobrepondo ao fato. Construir e apresentar os personagens motivando e surpreendendo o leitor com grande final. Atenção na coerência dos tempos verbais.
Verossimilhança… Praticando o desapego sociológico em busca da genialidade. Editar como numa carpintaria tendo urdidura! O que falta?
A HISTORIA
Chuva prevista fez intervalo para alegria geral.
Mesas e cadeiras emprestadas do distante Bar do Bill arrumadas na rua em frente do Tico’s. DJ Fulano e amigos estiram lona entre postes.
Um morador que assinou o abaixo-assinado, forma de consulta popular indicada pela UPP SOCIAL, assiste, elogia e agradece a chegada da poesia na esquina da Rua Carmelo com a Estrada Edgard Werneck.
A historia de ler e fazer poesia iniciada pela juventude dos anos setenta é reescrita por jovens e veteranos às margens do terceiro milênio.
Caminhada nas vilas da CDD nos dois dias anteriores ao evento encontra e revela ao mundo crianças lendo o fanzine.
Assistir a artista Monica Rocha, exultante, capturar detalhes em filmes. Testemunhar a Viviane falando: – Cara! O que fizemos foi revolucionário! Singular e comovente.
O protótipo de lançamento (produção independente de trinta exemplares) do livro TEMPORAIS de Wellington Guaranny, em outubro de 2010 foi pontual. Chamou, no entanto atenção da parceira do RJTV, Viviane de Sales para iniciarem juntos a retomada do movimento literário na Cidade de Deus, com o sarau POESIA DE ESQUINA em novembro de 2011 e com o fanzine que divulga o evento e publica textos dos poetas que participam do SARAU.
O encontro de duas gerações separadas por três décadas legitimado por poetas e amantes da arte de todos os cantos e centros do Rio e Grande Rio.
O BONDE
Numa ponta, Ana Beatriz com oito anos, na outra D. Tuca, quase oitenta. No meio, Ricardo, DJ Fulano, Viviane, Rosalina, Wellington.
Numa avaliação foi dito sobre o final – Antes, acabava com pessoas saindo. Neste, acabou porque NÓS encerramos.
No encerramento foi dito com aplausos: Nós não fechamos a rua para realizar um sarau. Abrimos a rua para a Poesia.

Sofrimento em dobro

Discreta de dia, de noite se ilumina de branco e de tanto brilho confunde bebuns que pensam ser a segunda lua. Assim se harmoniza a noite quando Carlos no seu apêcaixão viaja na web.
Kiko diz:
Oi D. Ju!
@xyz diz:
A Liz sumiu!
Kiko diz:
Nós…
@xyz diz:
Saiu ontem dizendo que ia ao teu apê.
Kiko diz:
Depois do cinema a deixei perto de sua kasa.
@xyz diz:
Celular desligado.
Kiko diz:
Discutimos, mas ela saiu bem!
@xyz diz:
Vê se lembra de alguém que tenha noticia!
Kiko diz:
Calma! Vou ver a agenda e já te ligo.
@xyz diz:
Que calma! Faz logo o que mandei!
Mãe obreira da Igreja Transcendental. Se souber onde fomos ontem me mata! Pelo menos, a ideia foi da Liz.
NA TENDA
Ogã canta com o atabaque. Todos de branco em coro giram. Seres de luz baixam em seus cavalos. “Eparei oyá!” Saudada, Iansã sobe levando tempestades. Pembas guiadas riscam mandalas. Dialeto banto no ar. Liz pensa no intercâmbio de dois anos no Japão sobre Física Nuclear. Desmaia e cai ao lado do namorado. Os de branco a levam diante do Gongá. Carlos em desespero tenta acudir. Está gelado. Liz recobre sentidos e a mente.
Kiko diz:
Lembro-me dela ter mencionado um amigo atropelado…
@xyz diz:
Vamos agora à delegacia e aos hospitais.
- Por que separar?
- Dois anos fora do Brasil. É o desapego ou sofrimento em dobro.
- Vamos poder nos ver pela net.
- Com a distância tu vai enrabichar com a primeira que te der mole!
EMERGÊNCIA DO HOSPITAL LJ
Juliana, a sogra, na porta barrada pelo guarda. Fita Carlos como que vendo o cruzamento de um pato enfurecido com uma égua no cio. Macas, leitos e cadeiras de aço empilhadas de gente sofrida. Do outro lado um canto improvisando uma UTI. O sinal de vida, um fio de luz no monitor, sobe e desce prestes a se tornar linear, indicando o ponto final. Carlos se aproxima. Seus olhares se tocam. Um bip. Sinais vitais oscilam. Tubos conectam máquinas ao corpo do rapaz. Estranho brilho no olhar diante do casal.


Lis volta do país do sol nascente e se dedica na cura do câncer.

VIDAS AMPUTADAS

Pô D. Zilda! Desencana! Deixa curtir minha música em paz!
- Menina! Como foi que cê se queimou desse jeito?
Juliana continua com o fone no ouvido sem interesse de responder.
A avó insiste na conversa. A neta ignora:
- Precisa cuidá da ferida! E como foi que se queimou?
- Inferno! O que foi agora?
- Como que foi que se queimou?
- Que chato! Toda hora a mesma pergunta! Foi no ferro de passar…
- Há! Conta outra vai! Essa num valeu! Como é que cê se queima num ferro de passá se num faz nada na casa! A pia tá cheia, se dexá apodrece. Tem loça da janta de onte! Num varre uma casa. Um montão de roupa prá passá…
Juliana mergulha em seus pensamentos. Tem vontade de sumir. Escuta de longe a mistura de vozes dos outros da sala na escola. Mira-se destacada ao fundo. As palavras desferidas pelo professor com olhares de espanto e repulsa da turma sobre seus peitos…
- E intão? Como foi que se queimou – Insiste D. Zilda com sarcasmo.
- Tava tentando desamassar a folha da redação…
Juliana reluta falar sobre a redação. Trabalho valendo nota tendo como tema o dia das mães. Havia jogado fora num ímpeto de raiva quando sua mãe lhe pedira para ficar acompanhando a avó convalescente da cirurgia. Sobre o que tinha escrito? Não lembrava.
- E como tá na escola? Vê se agora passa de ano! Três vezes repetindo a quinta série. Num é brinquedo não!
- Hã, hã!
O fone no ouvido ligado ao celular não impedia de escutar a voz da anciã. Não tinha nada para escutar. Tentava o rádio que só chiava. Na mente as vozes dos pirralhos no pátio no intervalo da merenda ou na saída:
“Juju girafa peitão! Juju girafa peitão! Juju girafa peitão!”
Blusão masculino esconde o busto gigante. (explosão)
Estoura um transformador. Cai um temporal.
Juliana treme. Aterrorizada. Celular em punho tenta iluminar a sala. Não lembra que no aparelho tem lanterna. D. Zilda fala da vela numa caixa dentro do armário da cozinha. De dentro da caixa, outra menor com um saco de mercado amarrando um cotoco de vela. Pisca-pisca do celular voltado para a porta, em nada ajuda D. Zilda na procura do fósforo. Retornando à sala, a anciã acende a vela no fundo de um copo de geleia emborcado sobre a pequena mesa de centro. O esforço causa muita dor.
Silencio entre as duas sentadas juntas na beira do sofá cortado pela dúvida adolescente:
- como é?
- como é o que menina?
- ter o peito cortado!
Pequeno filete de lágrima escorre entre as marcas do rosto da velha guerreira. Ju finge não ver. O fígado atingido pela quimioterapia, nem a amputação do seio se comparam à perda do único homem que amou por toda sua vida.
D. Zilda desfila os grandes feitos de Seu Tião, mestre de obras, dado por desaparecido em Bagdá, na ocasião da guerra do mundo contra o Iraque. Juliana adormece. A vela se apaga. D. Zildenira de Jesus falece.