sexta-feira, 19 de outubro de 2007

A REVISTA NÓS E O COMOCIDE

Enquanto o Grupo cultural Projeto se reunia para estudos na residência do Paulo Caramenz, a equipe da Revista Nós se reunia na residência do Sr Benedito Malaquias da Hora. A equipe da Revista era uma parte significativa, se não a maioria, do GCP. No entanto, para a produção da revista, o espaço oferecido pelo Benedito (que ocupava o cargo de Tesoureiro do COMOCIDE) parecia ser mais adequado.

O Benedito Malaquias era uma liderança nata n CDD. Foi pioneiro na campanha para a construção do atual Posto de Saúde (Unidade de Atendimento Médico Primário...). Nos anos setenta, o posto ficou com suas obras paralisadas por falta de recursos, e o Benedito sozinho visitou todas as residências da cidade de Deus recolhendo assinaturas dos moradores. O Abaixo Assinado foi proposta do COMOCID, mas somente o Benedito colheu a maior parte das assinaturas. Pois bem. Este líder comunitário tinha uma atuação de destaque no COMOCID e um perfil ideológico segundo o qual entendia ser necessário oferecer o máximo de suporte aos jovens que se pronunciavam como potencialmente, futuros lideres políticos.

Além de nos oferecer sua casa para reuniões, preparava um delicioso milk cheik caseiro. Colocava no congelador os sacos de leite da CCPL ou VIGOR, uma vez congelados, batia no liquidificar com frutas (mamão ou abacate) eram as prediletas. Servidos em abundância acompanhando sanduíches de queijo quente. Esses lanches ocorriam todos domingos (quando não tínhamos eventos) ou em um dia de semana à noite uma vez por mês para produzir a revista. Em uma certa ocasião, o Benedito compra com seus próprios recursos o Dicionário Aurélio, objetivando facilitar o trabalho de revisão ortográfica dos textos por nós editados. Assim, O COMOCID nas pessoas do Paulo Caramenz (Coordenador do Departamento Cultural, o Benedito Malaquias – Tesoureiro) se fez presente como elemento catalisador das forças que protagonizamos naquela época.

Em 1979 o GCP e a REVISTA NÓS tornam-se um só grupo. Mantínhamos os nomes por razões estratégicas e históricas. Este grupo e o COMOCID formam um certo tipo de parceria. Participei da maior parte das reuniões de diretoria do COMOCID e de algumas Assembléias Gerais. Ajudava o Benedito (na parte financeira, elaborando balanços e balancetes) e o Jorge Sylvestre (na secretaria, na elaboração e datilografia das ATAS.) Servi como um elemento de ligação entre a REVISTA NÓS/GCP e a Diretoria do COMOCID.

domingo, 7 de outubro de 2007

NÃO ESTÁVAMOS SÓS NA CDD DOS ANOS SETENTA E OITENTA!

O GCP com a Revista Nós não era o único grupo que produzia cultura nos anos setenta na cidade de Deus.

Havia o Grupo Liderança Cristã da Igreja Pai eterno São José.

Grupo Perspectiva de Teatro,

Jornal O Amanhã.

Um grupo de karatekas no Centro Social Urbano que nos anos oitenta dá origem a ONG TAIDOKAN KARATE CLUB – Centro de Estudos de Artes Marciais.


Grupo de Cinematografia do CIMPA (Colégio 

Intermunicipal Pedro Aleixo) que funda o primeiro cineclube na Cidade de Deus.

Grupo Acorda Crioulo porta voz do Movimento Negro na Cidade de Deus.

Grupo Ariri (de capoeira do Mestre Derli).

Blocos carnavalescos luar de Prata; Coroado, Garimpeiros, bloco da Lata, Bloco das Piranhas.

Escola de Samba Acadêmicos da Cidade de Deus.

E o grupo Jovem Guarda sob a direção do Adauto Filho que produzia a Rádio Comunitária com serviço de Alto Falante na Praça e os desfiles carnavalescos na Cidade e Deus.

A maior parte destes grupos se articulava com o COMOCID - Conselho de Moradores da Cidade de Deus.

Era como se estivéssemos numa espécie de universidade livre, aberta e popular. Que como muito apropriadamente escreve o poeta e hoje professor Pablo das Oliveiras: “ Naqueles dias a Revista (produto e processo), contribui significativamente na formação para uma consciência de cidadania. Hoje percebemos sua admirável extensão, pois para além do papel, a essência da Revista, em Nós, se imprimiu de diferentes maneiras alma a dentro.”.



REVIRAVOLTAS


Na 2ª metade 1979 saio da revista e logo em seguida aceito convite em participar do jornal o AMANHÃ.

GCP/RN, O AMANHÃ e FAMERJ

Em 79 uma crise interna faz com que me afaste do grupo GCP/RN por um tempo. Momento em que sou convidado pelo Almir para participar do Jornal. Um pouco relutante acabo por aceitar a proposta.

Logo em seguida reconstrói-se as relações de amizade entre todos os membros da REVISTA NÓS.

Em Abril de 1979 acontece a I SEMANA DE DEBATES SOBRE OS PROLEMAS DO RIO DE JANEIRO na ABI - Associação Brasileira de Imprensa. As equipes da RN/GCP e do Jornal O AMANHÃ estiveram presentes. 

Em Maio, o COMOCIDE realiza uma Assembleia Geral na qual é dado destaque à atuação das equipes da revista e do jornal. Nesta mesma assembléia é dado inicio ao debate sobre a realização de uma eleição para constituir nova Diretoria. Esta assembleia foi presidida pelo João de Pinho e que me chama para secretariar. O João Batista, Presidente do Conselho Fiscal, não queria continuar, mas entendia ser necessário uma chapa de conciliação que incluísse lideranças antigas e novas. Um dos veteranos indicados por ele era o  o Serafim, lider do Conselho de Moradores do Conj Gabinal e Margarida e importante ativista na igreja católica junto com o Padre Julio Grooten. O Almir Paulo, do Jornal O Amanhã, foi indicado para 1º Secretario. O Benedito Malaquias foi também indicado pelo João Batista para continuar como Tesoureiro. Mas o Benedito se recusou. ele era radicalmente favorável que ocorresse uma chapa que contemplasse em sua maioria, novos valores.
 Realizo então uma campanha junto aos grupos O AMANHÃ/PESPECTIVA DE TEATRO; CULTURAL PROJETO/REVISTA NÓS; Com o objetivo de formarmos uma chapa e concorrer as eleições do COMOCID.

Realizamos as eleições com três chapas: Havia a Chapa 1 com João de Pinho. A Chapa 2, uma articulação de grupos culturais e lideranças comunitárias locais na maioria muito jovens e inexperientes, liderados pelos componentes da RN/GCP e do Jornal O Amanhã. E a chapa 3, do João Batista.

Foi de fato um extraordinário exercicio de cidadania e demonstração de poder popular organizado. Conseguimos que viesse um Juiz com uma urna e cabine do TRE. E vi filas de moradores com identidade em mãos esperando para depositar seu voto na urna.
O resultado foi publicado no mesmo dia. E quando anunciaram a vitória da chapa 2, aconteceu algo incrivelmente mágico. Todas as pessoas se abraçavam. Tinha quem gritasse e pulasse de euforia e até que chorasse ainda sem acreditar na alegria sentida por tão avassaladora vitória. A maioria esmagadora dos votos do povo esta do nosso lado.
O João Batista que tinha se posicionado como adversário veio nos oferecer seu apoio incondicional. 
Em 1980 inauguramos uma nova era de grandes eventos políticos de massa na comunidade com o fechamento das duas principais vias de acesso na CDD: A Edgard Werneck e a Estrada Mal Salazar Mendes de Morais, para a realização de uma festa que se tornou tradição por mais de uma década. A festa do Dia do Trabalhador, o I de Maio.

O palco principal ficava na Praça Julio Grooten, onde aconteciam shows musicais, performances e comícios políticos.   

A cena politica local se reestrutura com novas articulações a partir do movimento associativista emergente no Estado do Rio de Janeiro.

Simultaneamente surge a partir de uma iniciativa do CEZO – Centro de Estudos da Zona Oeste com sede em Campo Grande encontros com alguns representantes da sociedade civil organizadas sobre problemas da região. Fui em alguns destes encontro com Paulo Caramenz representando o COMOCID. 

Estavam na liderança deste debate Cesar Campos e Jó Rezende.
No CEZO surgem os embriões para a fundação da Federação das Associações de Moradores do Estado do Rio de Janeiro – FAMERJ.

Com apoio do Sindicato dos Médicos, surgem as comissões de saude nas associações de moradores. E em 1982, realizamos o Primeiro Encontro Popular pela Saude do Rio de Janeiro na Cidade de Deus. A sede deste encontro foi o prédio onde agora funciona o CVT da FAETEC. Na época, era o único colégio particular de ensino médio na Cidade de Deus.


Parte da cúpula do COMOCIDE, da esquerda para direita, Nilton Santa (Presidente do GR Escola de Samba Acadêmicos da Cidade de Deus); Paulo, dono da principal farmácia local, Wellington França, representante do Grupo Cultural Projeto, João de Pinho, Presidente do COMOCIDE e Paulo Caraménz, Coordenador do Departamento Cultural do COMOCID.


CRONOLOGIA JORNAL O AMANHÃ

PRIMEIRA METADE DE 1979 – PERÍODO DE FUNDAÇÃO (pesquisa em andamento)

Maio de 1980 – Edição 4 ano II JORNAL O AMANHÃ

TITULO DA MATÉRIA DA CONTRA CAPA:
A CONJUNTURA DO PAÍS VISTA E COMENTADA POR QUEM SOFRE OS EFEITOS: O POVO.
(SEGUE PARTE DO ARTIGO)
No 2º semestre do ano passado o governo impôs ao Congresso um projeto para acabar com os dois partidos existentes até então (ARENA E MDB). O que eles queriam realmente era cassar o partido de oposição, que pelo voto popular o derrotava a cada eleição.
Mas não ficou só nisto. Com o pretexto de “Abertura” o que o governo também queria era o adiamento das eleições e manter o seu partido, a ex ARENA, agora com o nome de PDS em firme enquanto a oposição se dividia.


EXPEDIENTE
O AMANHÃ – Jornal da Cidade de Deus

Uma publicação dos moradores da Cidade de Deus, tendo o apoio jurídico do COMOCID – Registro de pessoas jurídicas nº 9.989.

CONSELHO EDITORIAL
Almir Paulo, Humberto França, Germana Maria, Wellington França, Ivan Paulo, Maria e Adalton Silva.
COORDENAÇÃO GERAL
Adalton Silva
DISTRIBUIÇÃO E VENDAS
Maria
DIAGRAMAÇÃO E ARTE FINAL:
Gilberto e Wellington
DEPTº FINANCEIRO
Germana Maria
IMPRESSÃO
Gonzaga e Nado



Acima e ao lado da Pedra Bonita, a imponente Pedra da Gávea! Mais adiante, o Oceano Atlantico e embaixo um louco de pedra brincando de alpinista!


Intervalo para o futebol numa clareira na Pedra Bonita.

E O QUE O GRUPO CULTURAL PROJETO FAZIA?

O carro-chefe do grupo foi a criação coletiva de uma peça de teatro.

Mas para produzir cultura, precisávamos de um lado estudar e de outro obter recursos para comprar material de pesquisa bem como material cenográfico.

Estudávamos em reuniões que aconteciam na residência do Paulo Caramenz, ele e sua esposa Ruth nos assessorava com as leituras dinâmicas. Escolhíamos um determinado livro e fazíamos leitura em voz alta e em rodízio. No final de cada capítulo realizávamos uma pausa para comentar o que cada um entendia ou não entendia sobre a matéria. Após cada debate, uma avaliação coletiva sobre o trabalho.

Po outro lado criamos a REVISTA NÓS para que com a venda dos exemplares, assinaturas e publicidade, arrecadar os recursos para investir no GCP.


PESQUISA DE OPINIÃO SEM NADA A DEVER AOS IBGE’S DA VIDA!

Realizamos uma pesquisa de opinião junto aos moradores das casas. Elaboração do anteprojeto, do projeto final de pesquisa, fase de campo para a coleta de dados, sistematização dos dados, relatório final com dados estatísticos e apresentação pública em uma reunião do COMOCID.

Passeios e visitações em parques e museus

Mostra de Teatro.

Subida à Pedra da Gávea e à Pedra Bonita

Piquenique na Quinta da Boa Vista

Visita com entrevistas coletivas junto aos residentes do Retiro dos Artistas.

Mostra de Artes e Artesanato

Corridas rústicas

Torneios de Xadrez

Festa do Primeiro de Maio com fechamento de parte da Estr Edgard Werneck

E cada evento realizado era um intenso aprendizado na prática de planejamento, organização e tomada de decisão democrática. Assim como a produção de matérias para publicação na Revista Nós.





Em pé da esquerda para a direita, Paulo Caramenz, Wellington França, Benedito Malaquias da Hora, sentadas, Lenilda Ferreira, Zelia Batista e Camila Batista.
Estamos registrando a doação que o Benedito fez para a revista da primeira edição do Dicionário Aurélio!

COMO TUDO COMEÇOU

Entre 1974 e 1976 enquanto por conta própria buscava concluir o ginásio supletivo no Colégio Embaixador Dias Carneiro, iniciei meus primeiros ensaios como escritor de poemas!
Lancei um pequeno livreto confeccionado manualmente, o que chamei de Poesia Experimental.
Gostava de escrever textos que versassem sobre o cotidiano de pessoas simples, sua relação com a sociedade. Era uma poesia engajada. De protesto, contra o “estatus quo” dominante. Contra as injustiças sociais da época.
Os livretos com minhas poesias distribuía entre amigos e vizinhas e vizinhos. Fazia dos poemas a experiência de despertar reflexão, debate e se possível algum tipo de ação conseqüente relacionada com os temas propostos.

Em 1976 estava matriculado em um curso de formação de ator na escola de teatro Martins pena, no centro do Rio. Trabalhava em uma clinica radiológica na Rua do México. Freqüentava o Museu Nacional de Belas Artes, o Teatro Municipal, a Sala Cecília Meireles, o Museu de Arte Moderna, no Aterro do Flamengo. Lia tudo sobre antropologia, educação, teatro, filosofia, sociologia, economia política. Jornais “Pasquim”, “Opinião” e Jornal do Brasil.

Tudo que lia, escutava e via, reproduzia em poesia!

E com meus poemas na mão, redistribuía na Cidade de Deus o que aprendia.

Logo no inicio de 1976, proponho a formação de um grupo de produção cultural e de teatro.
A idéia surge numa conversa informal entre amigos e amigas.
Nádia, Geórgia, Adriana, Glória e Lenilda levaram a idéia para outras pessoas, e o grupo se amplia.
Depois vieram, O Pablo das Oliveiras (na época assinava seus desenhos e poesias como Pablito), Zélia, Camila, Paulo Caramenz, Cristina, Agnaldo e Benedito Malaquias.

Até o nome, GRUPO CULTURAL PROJETO foi resultado de um processo criativo, coletivo.
A formação do grupo ocorre já com a proposta de se criar uma peça de teatro. Numa produção coletiva. O local dos primeiros ensaios foi o Centro Comunitário (um prédio anexo à sede local da CEHAB – Companhia Estadual de Habitação). Naquele mesmo local se reunia a Diretoria do Conselho de Moradores da Cidade de Deus, COMOCIDE.





No ano seguinte, objetivando o desenvolvimento de uma estratégia de captação de recursos para a formação de um fundo monetário o GCP lança a Revista Nós.
O objetivo inicial da revista nunca fora alcançado, a quantia arrecadada adquirida por meio e assinatura, publicidade e investimentos particulares (doações) só dava para cobrir as despesas de reprodução.
No entanto, a revista acaba assumindo os mesmos objetivos do grupo: estabelecer intercâmbio com setores culturais da Cidade de Deus e de outros bairros; estimular os valores artísticos e culturais locais; estudo e pesquisa dos mesmos, etc.