sábado, 9 de agosto de 2014

O prólogo, a história e a esquina da poesia

PROLOGO
Metralhadoras tocando o hino da morte marcado pelo tambor das granadas tornam-se eco do passado. Manos, manas e menores, bandoleiros e soldados pobres tombados nas vielas atapetada de plástico vermelho com restos de pó garimpados por crianças. Pétalas de cinza pousando sobre mesas de bar, lembrando corpos de vítimas queimados pela crueldade humana mais sombria… Cedem lugar aos soldados cidadãos querendo ensinar artes e lutas para crianças. Jovens ensinando pais a materializar projetos. Trabalhadores sem trincheiras tricotando ideias reaprendem de igual para igual com intelectuais novos fazeres literários.
PONTO FINAL OU VÁRIAS EXCLAMAÇÕES?
W. atravessa a praça recém-molhada pela chuva que abre o 1º de maio de 2012. Mente inundada de conceitos apreendidos nos encontros da FLUPP PENSA.
Contar uma historia criada na Cidade de Deus com final feliz. Arte se sobrepondo ao fato. Construir e apresentar os personagens motivando e surpreendendo o leitor com grande final. Atenção na coerência dos tempos verbais.
Verossimilhança… Praticando o desapego sociológico em busca da genialidade. Editar como numa carpintaria tendo urdidura! O que falta?
A HISTORIA
Chuva prevista fez intervalo para alegria geral.
Mesas e cadeiras emprestadas do distante Bar do Bill arrumadas na rua em frente do Tico’s. DJ Fulano e amigos estiram lona entre postes.
Um morador que assinou o abaixo-assinado, forma de consulta popular indicada pela UPP SOCIAL, assiste, elogia e agradece a chegada da poesia na esquina da Rua Carmelo com a Estrada Edgard Werneck.
A historia de ler e fazer poesia iniciada pela juventude dos anos setenta é reescrita por jovens e veteranos às margens do terceiro milênio.
Caminhada nas vilas da CDD nos dois dias anteriores ao evento encontra e revela ao mundo crianças lendo o fanzine.
Assistir a artista Monica Rocha, exultante, capturar detalhes em filmes. Testemunhar a Viviane falando: – Cara! O que fizemos foi revolucionário! Singular e comovente.
O protótipo de lançamento (produção independente de trinta exemplares) do livro TEMPORAIS de Wellington Guaranny, em outubro de 2010 foi pontual. Chamou, no entanto atenção da parceira do RJTV, Viviane de Sales para iniciarem juntos a retomada do movimento literário na Cidade de Deus, com o sarau POESIA DE ESQUINA em novembro de 2011 e com o fanzine que divulga o evento e publica textos dos poetas que participam do SARAU.
O encontro de duas gerações separadas por três décadas legitimado por poetas e amantes da arte de todos os cantos e centros do Rio e Grande Rio.
O BONDE
Numa ponta, Ana Beatriz com oito anos, na outra D. Tuca, quase oitenta. No meio, Ricardo, DJ Fulano, Viviane, Rosalina, Wellington.
Numa avaliação foi dito sobre o final – Antes, acabava com pessoas saindo. Neste, acabou porque NÓS encerramos.
No encerramento foi dito com aplausos: Nós não fechamos a rua para realizar um sarau. Abrimos a rua para a Poesia.

Sofrimento em dobro

Discreta de dia, de noite se ilumina de branco e de tanto brilho confunde bebuns que pensam ser a segunda lua. Assim se harmoniza a noite quando Carlos no seu apêcaixão viaja na web.
Kiko diz:
Oi D. Ju!
@xyz diz:
A Liz sumiu!
Kiko diz:
Nós…
@xyz diz:
Saiu ontem dizendo que ia ao teu apê.
Kiko diz:
Depois do cinema a deixei perto de sua kasa.
@xyz diz:
Celular desligado.
Kiko diz:
Discutimos, mas ela saiu bem!
@xyz diz:
Vê se lembra de alguém que tenha noticia!
Kiko diz:
Calma! Vou ver a agenda e já te ligo.
@xyz diz:
Que calma! Faz logo o que mandei!
Mãe obreira da Igreja Transcendental. Se souber onde fomos ontem me mata! Pelo menos, a ideia foi da Liz.
NA TENDA
Ogã canta com o atabaque. Todos de branco em coro giram. Seres de luz baixam em seus cavalos. “Eparei oyá!” Saudada, Iansã sobe levando tempestades. Pembas guiadas riscam mandalas. Dialeto banto no ar. Liz pensa no intercâmbio de dois anos no Japão sobre Física Nuclear. Desmaia e cai ao lado do namorado. Os de branco a levam diante do Gongá. Carlos em desespero tenta acudir. Está gelado. Liz recobre sentidos e a mente.
Kiko diz:
Lembro-me dela ter mencionado um amigo atropelado…
@xyz diz:
Vamos agora à delegacia e aos hospitais.
- Por que separar?
- Dois anos fora do Brasil. É o desapego ou sofrimento em dobro.
- Vamos poder nos ver pela net.
- Com a distância tu vai enrabichar com a primeira que te der mole!
EMERGÊNCIA DO HOSPITAL LJ
Juliana, a sogra, na porta barrada pelo guarda. Fita Carlos como que vendo o cruzamento de um pato enfurecido com uma égua no cio. Macas, leitos e cadeiras de aço empilhadas de gente sofrida. Do outro lado um canto improvisando uma UTI. O sinal de vida, um fio de luz no monitor, sobe e desce prestes a se tornar linear, indicando o ponto final. Carlos se aproxima. Seus olhares se tocam. Um bip. Sinais vitais oscilam. Tubos conectam máquinas ao corpo do rapaz. Estranho brilho no olhar diante do casal.


Lis volta do país do sol nascente e se dedica na cura do câncer.

VIDAS AMPUTADAS

Pô D. Zilda! Desencana! Deixa curtir minha música em paz!
- Menina! Como foi que cê se queimou desse jeito?
Juliana continua com o fone no ouvido sem interesse de responder.
A avó insiste na conversa. A neta ignora:
- Precisa cuidá da ferida! E como foi que se queimou?
- Inferno! O que foi agora?
- Como que foi que se queimou?
- Que chato! Toda hora a mesma pergunta! Foi no ferro de passar…
- Há! Conta outra vai! Essa num valeu! Como é que cê se queima num ferro de passá se num faz nada na casa! A pia tá cheia, se dexá apodrece. Tem loça da janta de onte! Num varre uma casa. Um montão de roupa prá passá…
Juliana mergulha em seus pensamentos. Tem vontade de sumir. Escuta de longe a mistura de vozes dos outros da sala na escola. Mira-se destacada ao fundo. As palavras desferidas pelo professor com olhares de espanto e repulsa da turma sobre seus peitos…
- E intão? Como foi que se queimou – Insiste D. Zilda com sarcasmo.
- Tava tentando desamassar a folha da redação…
Juliana reluta falar sobre a redação. Trabalho valendo nota tendo como tema o dia das mães. Havia jogado fora num ímpeto de raiva quando sua mãe lhe pedira para ficar acompanhando a avó convalescente da cirurgia. Sobre o que tinha escrito? Não lembrava.
- E como tá na escola? Vê se agora passa de ano! Três vezes repetindo a quinta série. Num é brinquedo não!
- Hã, hã!
O fone no ouvido ligado ao celular não impedia de escutar a voz da anciã. Não tinha nada para escutar. Tentava o rádio que só chiava. Na mente as vozes dos pirralhos no pátio no intervalo da merenda ou na saída:
“Juju girafa peitão! Juju girafa peitão! Juju girafa peitão!”
Blusão masculino esconde o busto gigante. (explosão)
Estoura um transformador. Cai um temporal.
Juliana treme. Aterrorizada. Celular em punho tenta iluminar a sala. Não lembra que no aparelho tem lanterna. D. Zilda fala da vela numa caixa dentro do armário da cozinha. De dentro da caixa, outra menor com um saco de mercado amarrando um cotoco de vela. Pisca-pisca do celular voltado para a porta, em nada ajuda D. Zilda na procura do fósforo. Retornando à sala, a anciã acende a vela no fundo de um copo de geleia emborcado sobre a pequena mesa de centro. O esforço causa muita dor.
Silencio entre as duas sentadas juntas na beira do sofá cortado pela dúvida adolescente:
- como é?
- como é o que menina?
- ter o peito cortado!
Pequeno filete de lágrima escorre entre as marcas do rosto da velha guerreira. Ju finge não ver. O fígado atingido pela quimioterapia, nem a amputação do seio se comparam à perda do único homem que amou por toda sua vida.
D. Zilda desfila os grandes feitos de Seu Tião, mestre de obras, dado por desaparecido em Bagdá, na ocasião da guerra do mundo contra o Iraque. Juliana adormece. A vela se apaga. D. Zildenira de Jesus falece.

Perdemos um dia e ganhamos uma vida

O toque no celular lembra existência de labuta pós noite. Vizinho Tião na praça varrendo. Estridente relógio chinês se esguela. Num susto pula da cama ao banho. Pega mochila. Corre na rua. No dobrar a esquina, estanca. Volta. Esqueceu crachá. Quase no ponto. Retorna ao lar. Falta celular. Olha hora no visor. Bateria fraca.

Procura carregador. Na pista, ônibus à vista! Atravessa. Faz sinal cortando pela frente: ZÁS, tira um fino. Não para.
Outro ônibus vazio ultrapassa por fora. Vans sequeladas lotadas com cobradores gritando lugares que passa, atrapalham. Procura caneta para anotar o numero e reclamar. Outro caixão de rodas. Desembarca um, entra dez.
Da porta para a roleta, montanha de bolsas e pessoas de todos os cheiros e tamanhos. Mais gente atrás querendo entrar no sopapo. Mão bate no bolso. Vazio. Parte buzão lotadão como que lançado ao espaço. Abre a mochila. Procura dinheiro, carteira, cartão. Achei! Pensou. Pô! Não serve… É só um cartão de banco.
Um solavanco e uma laranja cai. O papel com o número (do tal que deu o balão) voa e pousa só de sacanagem entre as pernas do motorista enfezado. Um rapaz, solidário, tenta pegar a laranja fujona. Noutra freada salta da mochila a marmita recapturada com malabarismo. Aflito, constata: sem grana. Sem riocard.
- Motorista! Tô sem dinheiro. Posso descer pela frente quando chegar?
-Tá indo pra onde?
- Alvorada!
- Assim tu quebra a firma. Tem câmara e lá tem fiscal. Tem que descer aqui!
- Mas tamo na Gardênia.
- Dá teu jeito!
Gritaria no ônibus:
- Como é que é meu camarada! Desce logo! Tá atrasando a viagem! Tenho que trabalhar!
- Qual foi piloto! Libera o cara prá entrar por trás!
Uma voz rouca do meio do salão: – Eu pago! O ancião caminha curvado. Numa mão, segura o cartão, a outra
aperta o coração e cai sufocado. O povo cala.
Ônibus na entrada de emergência. Todos gritam: ACUDAM!
Atraso explicado pelo sucedido e por levar desconhecido ao hospital não convence.